Tocava uma música nova na rádio. Uma dessas lentas sobre amor.
Ele ouvia pouco, estava pensando em tantas coisas.
Enquanto colocava suas coisas nas malas para a grande mudança, tentava controlar as expectativas que o envolviam naquele momento.
Ele estava indo embora. Para muito mais longe do que havia esperado.
Todos insistiam para que voltasse logo, e ele concordava. Mas por dentro, sabia que talvez nunca mais voltasse. Isso ele guardava como um segredo querido e assustador, daqueles segredos especiais, como a sensação do primeiro amor, a vergonha do primeiro dia de aula e o medo do fantasma do terceiro andar do colégio.
Em suas gavetas achou cartões de ex-namoradas que nunca havia jogado fora, trabalhos da faculdade, cadernos do colégio.
Achou um desenho. Rabiscos e mais rabiscos de giz-de-cera. Só ele sabia o que significava.
Sentou-se na cama e fechou os olhos.
Como a vida muda.
Era intervalo na escolinha, mas ele não queria ir brincar. Pegou um papel e os gizes-de-cera dos alunos menores.
Ele desenhava lentamente uma linha por vez. Uma de cada cor, e nunca fiéis à realidade.
Porque ele faria um chão cinza quando podia usar o azul?
Desenhou a si mesmo, em linhas tortas que ele rabiscava por cima.
Desenhou a casa em que moraria.
A grama azul, a casa verde, o corpo vermelho, a esposa que teria, rosa, um bebê, azul céu e o cachorro, laranja.
Seu pai reclamava entre lágrimas que não tinha porque viver. Sua mãe dizia, também entre lágrimas, que ele havia enlouquecido.
Dobrou o desenho e colocou no bolso.
"Ninguém vai chorar por mim. Já tenho porque viver."
