quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O romântico

Queria eu que este poema
Se escrevesse sozinho
Um big bang de versos
E quizá a natureza, superando a poeta,
Rimasse.

Queria que não fosse hercúleo
Este desastroso ímpeto
De tornar minha dor,
Organizada e
Pública.

Trarei o lamento,
Tal como é.
Pobre, cru e clichê:
O poeta é romântico
E o romântico é um exigente.

Não se alcançam as
ex
pec
ta
ti
vas
de um romântico.

E dá-se a receita de um 
eterno
coração partido.

Que mal refez-se
E é novamente
Dor.

Porque tudo exige
E leves são apenas os minutos
Que precedem a 
Decepção.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Respirar me dói a alma

Era tão 
[calma
E tão 
[leve.

Pensaria que era 
[cruel,
[Incômoda.
Que seria 
[rude
[e áspera.

Mas a solidão que sentia
Lhe completava como se fosse
[Ser.
Como se não fosse
[Oca.

A dor era
[suave,
[amiga
[e presente.

Em seu caminho,
Lhe reservava espaço.
E a seguir seus passos,
Lhe segurava 
[firme 
pela mão 
[vazia.

Era então 
[completo
Devido a sua 
[latente
[intensa
[e permanente
Incomplitude.

Paris universaille

Era como se ele a beijasse
Se o chão repentinamente 
Evaporasse
Ele se manteria suspenso
Tão
Leve
Era sua carne
E a flauta, doce, porém transversa
O beijava retornando a gentileza.

A platéia
Sem palavras 
De boca
E cabeça 
Abertas

A cidade que o sol acendia
E o grupo que tocava calmo
O rapaz que cantava
Sua alma inteira 
Exposta
Ao sol de Paris

Uma criança brincando 
Platéia, que não se aquieta
Era lindo!
Tão lindo era!
Paris, universal.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Poema a uma lutadora

Toca o sinal, ela perdeu mais um round
Aqui na primeira fila, se cheira o pânico, o suor e o sangue
Quando o ringue se torna jaula
Ela ainda vai ganhar

O intervalo desaparece em agonia
Tecidos se exibindo, em pedaços
Ela se encolhe contra o poste, mas ela é
Tão
Grande.

A luta continua
O tatame chama
Ela responde:
Hoje não

Socos trocados
As cordas a jogam de volta ao centro
Ainda há luta
Mas e o cansaço?

Eu grito
Pulo
Me desespero
Mas continuo na primeira fila, o meu lugar

A luta é dela
E dela é a força
Imensa
Para ganhar da dor de todos os dias

domingo, 13 de maio de 2018

Marapé

Naquele prédio de cozinhas pequenas,
Se sentiam os mais diferentes aromas.
As refeições se anunciavam pelas janelas,
E os vizinhos, atentos, competiam sabores.

Era sabido que esfriava, quando os legumes despontavam no ar
Tão bem cozidos para mergulhar na sopa.
E às madrugadas, sentia-se o peso da insônia,
E o aroma do feijão.

Durante o dia, os aromas acompanhavam canções
Das mais variadas.
E o porco, a carne, o peixe, complementavam o ritmo,
Estalando nas panelas.

Do banheiro, se sentia a alegria de um bolo no forno.
Do sofá, o cheiro de pipoca.
Os apartamentos, pequenos, se recheavam de desejos

e fome.

Era um edifício de dietas proibidas.